Pesquisadora traça perfil dos personagens da literatura brasileira

A professora da Universidade de Brasília, Regina Dalcastagnè, foi contemplada esta semana com o Prêmio Pesquisador 2010, categoria sênior – Ciências Humanas. O reconhecimento foi dado pela Secretaria de Estado Ciência e Tecnologia e pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal.

Regina Dalcastagnè: professora desenvolveu um trabalho de pesquisa para descobrir o perfil dos personagens da literatura brasileira contemporânea

Para conquistar o mérito, a professora desenvolveu um trabalho de pesquisa para descobrir o perfil dos personagens da literatura brasileira contemporânea. “Percebi que havia ausência de dois grandes grupos em nossos romances: dos pobres e dos negros e queria entender essa realidade”, disse Regina.

A pesquisa foi iniciada no segundo semestre de 2003 e contou com a participação de cerca de 20 alunos de graduação e seis da pós-graduação do curso de Literatura da UNB. Segundo a professora, a estruturação do trabalho foi dividida em duas etapas. “A primeira contemplou os romances publicados entre 1990 e 2004 e a segunda os romances de 1965 a 1979”, explicou.

Regina fez uma espécie de recenseamento das personagens de todos os romances publicados no Brasil entre 1965-1979 e 1990-2004 pelas editoras mais importantes dos dois períodos. Segundo ela, foram estudadas 1754 personagens de 389 romances escritos por 242 autores diferentes.

“No Brasil, a desigualdade social atinge até a literatura”

Como resultado, o trabalho mostrou que o romance brasileiro contemporâneo é escrito, em sua maioria, por homens (72,7% no período mais recente e 82,6% nos anos 60-70); brancos (cerca de 93% nos dois períodos) e moradores do Rio de Janeiro e de São Paulo (60% deles). A pesquisa apontou ainda que quase todos os escritores já trabalhavam com a produção de texto em suas profissões, sendo eles, em muitos casos, jornalistas ou professores.

Quanto aos personagens da literatura brasileira, a professora concluiu que a maioria são homens (cerca de 60% nos dois períodos), brancos (cerca de 80%) e de classe média (cerca de 50%).

Quanto às profissões desses personagens, se forem homens são na maioria escritores e quando mulheres são donas-de-casa. “Isso se forem personagens de pele clara porque se forem negras, os homens passam a ser bandidos e as mulheres são domésticas ou prostitutas”, destaca a pesquisadora.

Quanto à orientação sexual, Regina aponta que as personagens são quase todas heterossexuais (88% no primeiro período, 81% no segundo).

Segundo Regina, a analise dos dados é clara. “O que esses números mostram, é que as desigualdades sociais atingem também a literatura, expressão que costuma ser idealizada como um espaço onde se exerce a crítica. Que o campo da narrativa brasileira é tão contaminado ideologicamente quanto qualquer outro, pelo simples fato de ser construído, avaliado e legitimado em meio a disputas por reconhecimento e poder. Ao contrário do que apregoam os defensores da arte como algo acima e além de suas circunstâncias, o discurso literário não está livre das injunções de seu tempo”, analisa a professora.

*Entrevista exclusiva feito pelo blog Edson Machado

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