Entrevista: Dr. Esper Cavalheiro

Para comemorar a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Brasil, que acontece de 17 a 23 de outubro de 2011, vamos publicar várias novidades em pesquisa e inovação aqui no blog. E para começar, entrevistamos Dr. Esper Cavalheiro, assessor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), uma organização social cuja a finalidade é ajudar a fazer estudos prospectivos. “Se nós percebemos algum gargalo no desenvolvimento, nossa missão é planejar e fazer isto desaparecer para que ele aconteça. Como por exemplo, definir quais os tipos de especialistas podem trabalhar em um projeto. Para isso, precisamos de convergência de conhecimento”, explica.

 

“As pessoas precisam entender a necessidade de investir em ciência e tecnologia para que a sociedade possa se desenvolver e se tornar mais justa e igual para todos”

Neurocientista na Universidade Federal de São Paulo, Dr. Esper também já foi presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e secretário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Vejo um cenário muito positivo para a ciência no Brasil na próxima década. Isso porque os doutores que estão sendo formados hoje vão se multiplicar e teremos muito mais cabeças fazendo convergências e impulsionando este país pra frente”, afirma.

 

Ainda se faz pouca educação científica no país?

Infelizmente, sim. A educação científica deveria estar sempre presente na vida das pessoas. Logo no início mesmo, quando a criança começa a desenvolver o seu cérebro e a compreender o universo e o significado da vida. É claro que em cada fase do desenvolvimento humano a complexidade destas questões vai aumentando. Mas os pequenos são curiosos, eles investigam o ambiente que eles vivem, perguntam e vão atrás. O que acontece é que normalmente os adultos vão educando mal essas crianças, tentando cortar as curiosidades naturais delas. O ideal é manter este cérebro sempre curioso.

Seria ciência para todos?

Não estou dizendo que é importante transformar todo mundo em cientista, afinal umas têm vocação para isto e outras não. Mas é importante que o cidadão entenda que ao comprar uma televisão de LCD ou plasma, ali tem um montão de tecnologia. Ao abrir uma geladeira tem tecnologia. O quanto de conhecimento científico tem um celular? As pessoas precisam entender a necessidade de investir em ciência e tecnologia para que se tenha um bem-estar de vida e para que a sociedade possa se desenvolver e se tornar mais justa e igual para todos.

“Hoje, somos um país respeitado e produtor de ciência”

Como sr avalia a prática da ciência no Brasil?

Demos um salto grandíssimo nos últimos anos, desde o final do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, quando começaram a criar o financiamento por meio dos fundos setoriais. Com mais dinheiro é possível fazer melhor. E outro fator foi a consolidação da pós-graduação brasileira, aberta para um maior número da população. Se você tem mais gente para fazer pesquisas e mais dinheiro para apoiar estas pessoas é maravilhoso. Hoje, somos um país respeitado e produtor de ciência. É claro que temos pontos negativos, não temos uma distribuição equitativa de cientistas por todo o Brasil, mas estamos lutando para chegar lá.

E os desafios?

Temos muitos gargalos jurídicos. É muito difícil esta complexidade, por exemplo, na hora de fazer uma compra internacional. Os trâmites burocráticos atrapalham e normalmente atrasam todo o processo da pesquisa. A insegurança jurídica brasileira é também um grande entrave ao desenvolvimento geral. E temos que formar mais gente. Estamos longe de termos uma proporção adequada de pesquisadores por número de população que sejam compatíveis com os grandes países. Precisamos de muitos doutores ainda.

 

Quais são os setores com mais pesquisadores no país?

Primeiro, a área da saúde – que envolve não só a parte médica, mas os biólogos, farmacêuticos, entre outros. Em segundo lugar vem a agricultura tropical. Temos a Embrapa que está fazendo um excelente trabalho e destacando o Brasil lá fora. Hoje, por exemplo, estamos aumentando nossa produção de alimentos sem aumentar muito a área de produção. Isso é resultado de muita pesquisa e trabalho.

Os pesquisadores estão descobrindo o Brasil?

Sempre tivemos uma posição de liderança na América do Sul, mas hoje temos muitos cientistas dos EUA e da Europa indo e vindo com uma facilidade muito grande. Entendo que Brasil não é apenas um “celeiro de cérebros”, mas tem espaço e ambiente de produção que muitos querem participar porque é um país que ainda tem desafios imensos. Pesquisar um país como o nosso, com tanta coisa para fazer, é emocionante.

Como o sr analisa o papel do CNPq e das Universidades no fomento do conhecimento científico?

O CNPq em conjunto com a Capes ampliou o leque de atuação e isso aumentou as possibilidades de formarmos mais cientistas. Antes eles apoiavam exclusivamente os cientistas já formados, hoje atendem até os jovens que estão no ensino secundário com financiamento, prêmios, oportunidade de fazer um curso no exterior, terminar a graduação em uma universidade nos Estados Unidos, entre outros trabalhos. A Dilma lançou agora em julho, por exemplo, o programa Ciência sem Fronteiras, que promete conceder bolsas de estudo no exterior a jovens brasileiros.  As oportunidades estão surgindo. Precisamos mais? Claro que sim, mas estamos caminhando para isto.

Como avalia a evolução da neurociência no país?

Surpreendentemente ela sempre esteve bem colocada e na saúde foi a área que mais cresceu nos últimos vinte anos. Temos pesquisadores no país que são exemplos internacionais e líderes. Se você vai aos congressos de neurociência no mundo, tem sempre um brasileiro convidado a falar e isto tem um grande significado. É muito importante saber que alguém quer ouvir o que tem a dizer um cientista brasileiro. A ciência se faz com ideias e não somente com grandes equipamentos. Quando se tem todo mundo preparado, a coisa melhora.

Em 2008, um robô em Kyoto (à esq.) andou graças ao pensamento de um macaco no laboratório de Nicolelis, nos Estados Unidos. Foi o ponto culminante de um trabalho iniciado em 1999, com a macaca Belle (à dir.). Entre as duas pesquisas, Nicolelis fundou o Instituto de Neurociência de Natal (centro) Foto/Auto Esporte

O que é a convergência tecnológica e como ela funciona?

Convergência tecnológica é a junção de quatro disciplinas maiores: a Nanotecnologia, Biotecnologia, a Tecnologia de Informação e a Neurociência. Como estas quatro áreas do conhecimento poderiam convergir para fazer um ser humano melhor, mais criativo, com menos doença e que tivesse capacidade de interagir com os computadores? Como enriquecer a mente humana? Como compreender tanta coisa em tão pouco tempo? Essas perguntas poderiam ser respondidas com o trabalho da convergência tecnológica. Temos várias pesquisas no Brasil, no estágio experimental, onde as pessoas podem interagir o cérebro com a máquina e conseguir tratamento para algumas doenças. Com esta técnica, as pessoas cegas que podem usar uma retina artificial; e um surdo recebe um chip para poder ouvir. O brasileiro Miguel Nicolelis entrou para o hall dos grandes cientistas pela façanha de fazer com que um macaco, com ajuda de eletrodos e computadores, conseguisse comandar um braço robótico por meio do pensamento. Isto é um exemplo de convergência entre a engenharia eletrônica, a telecomunicação e a neurociência. Três áreas que se convergem entre si para resolver uma questão, um problema e ajudar a humanidade.

O sr acredita que um dia a máquina pode substituir o homem?

As máquinas estão aí para colaborar e ajudar as pessoas a ultrapassar os limites. Aquelas que têm mais acessos a informação, sempre vão estar melhor para competir no mundo de hoje, enquanto as que não têm vão ter que contar apenas com seu próprio instrumental biológico. A teoria da convergência ressalta bem isso. Ela foi criada para mudar o sistema de educação, melhorar a condição da segurança nacional, preparar as pessoas para ataques terroristas, ou seja, além de melhorar o ser humano, ela também queria melhorar a capacidade de seu desenvolvimento. Mas é difícil falar de desenvolvimento de seres humanos “bem dotados” e cérebro hiperpotente, quando temos crianças em todo o mundo morrendo de fome. É muito ruim quando pensamos neste desequilíbrio humano que ainda existe na face da terra. Esse embate entre o humano e o não humano, esta desigualdade da terra me faz pensar onde está nossa humanidade? É muito interessante que conseguimos fazer um programa de defesa do meio ambiente, mas não olhamos para nossa própria natureza. O homem também faz parte da natureza, mas não falamos de uma ecologia humana. Como você protege uma árvore e não protegem crianças que estão na porta de um hospital precisando de um médico? Precisamos proteger a todos.

Qual é o limite do ser humano?

Não temos limites. Não sabemos o limite para aventura humana. Nossa curiosidade sobre o que é a vida é o que nos impulsiona, esperando que um dia tenhamos a resposta. Mas posso dizer que o limite básico é não fazer o mal intencionalmente.

1 comentário

  1. Parabéns pela feliz escolha do Professor Esper Cavalheiro para iniciar esse conjunto de matérias. O pesquisador nos traz importantes reflexões e novidades e nos convida a pensar sobre coisas que muitas vezes não aparecem, nem nos rodapés dos artigos científicos.
    Lelio Fellows Filho
    Brasília

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