UCA: boas intenções, mas falta gestão

700 laptops ficam guardados em caixa de papelão em escola pública do DF

O Centro de Ensino Fundamental 01 do Planalto foi uma das seis escolas do Distrito Federal beneficiada pelo programa UCA – Um Computador por Aluno. O programa do governo federal prometia distribuição de laptops para escolas selecionadas, além de infraestrutura básica, como internet, pontos de energia e armários para guardar os equipamentos. No entanto, na prática, a realidade foi outra.

A escola da Vila Planalto recebeu os computadores, mas falta internet eficiente, pontos de energia para recarregar as máquinas e os armários nunca chegaram. “Os laptops ficam guardados em caixa de papelão (foto). Sem ponto de energia nas salas de aula e internet de qualidade fica difícil o uso desses equipamentos pelos alunos”,afirma Ernando de Amorim Souza, supervisor da escola. Quanto ao treinamento dos professores, ele explica que também é difícil, já que não acontece com frequencia e a rotatividade dos professores, devido os contratos temporários, impede que os novos contratados estejam qualificados para usar corretamente os computadores na sala de aula. “Hoje 70% dos nossos professores são novatos e não participaram do curso de qualificação. O UCA tem boas intenções, mas falta cuidado na gestão pública”, ressalta o supervisor da escola.

O blog Edson Machado visitou o Centro de Ensino Fundamental 01 do Planalto. Veja a entrevista com professor Ernando de Amorim Souza, supervisor da escola.

Vocês participaram do  UCA. Quantos laptops a escola recebeu?

R: Cerca de 700 computadores.

E como o sr. avalia o programa?

R: Funcionou parcialmente porque faltou uma contrapartida da Secretaria da Educação do DF, que ficou responsável de montar a infraestrutura, colocar as tomadas, disponibilizar energia elétrica para recarregar os aparelhos nas salas de aula e também os armários. A Secretaria de Educação do DF demorou dois anos apenas para instalar algumas tomadas nas salas de aula, mas mesmo assim elas são insuficientes para executarmos um bom trabalho. A internet que foi disponibilizada pelo MEC também é via rádio, é precária e sofre constantes interrupções.

Como o laptop é trabalhado na sala de aula?

R: O professor leva a ferramenta para a sala de aula de acordo com o número de alunos e eles fazem pesquisa. Isso duas vezes por semana em cada turma. Quando isso acontece é muito bom, os alunos ficam entusiasmados.  Vários não conheciam computadores. Então eles fazem pesquisa de acordo com o conteúdo que está sendo trabalhado na sala de aula pelo professor.

Os alunos podem acessar todo tipo de conteúdo ou somente programas educativos criados pelo governo?

R: Eles têm acesso a tudo. Inclusive, os laptops não são bloqueados. Eles podem acessar o que eles quiserem.

Como foi o treinamento dos professores?

R: O curso foi oferecido pela UnB em 180 horas. Foi bom o treinamento, mas o que acontece é que boa parte dos professores são transferidos, principalmente por conta dos contratos temporários. Então, você tem um professor com contrato temporário hoje, você o capacita, o contrato acaba, ele vai embora da escola e o próximo a chegar não vai estar familiarizado com o equipamento. Esse ano, por exemplo, o grupo está quase 70% novo e precisamos fazer uma nova capacitação. Então a coisa não anda, fica parada. A capacitação deve ser freqüente.

Foi difícil treinar os professores?

R: Sim. Observamos uma certa resistência de vários professores a essa tecnologia. Diziam que não tinham tempo para o treinamento. Alegavam excesso de trabalho, muitas atividades e provas para corrigir.

O governo disse que os tablets serão para professores do ensino médio. Esta escola é de ensino fundamental, mas como vocês já passaram pelo UCA, como o sr. acha que esses professores vão receber os tablets?

R: Eu acredito que seja mais fácil que os laptops. As pessoas estão curiosas. Vi escolas particulares que estão usando os tablets e a aceitação foi boa. Espero que aconteça o mesmo na rede pública. Mas, claro, tudo vai depender de um bom treinamento e infraestrutura.

Na sua opinião, o tablet pode tornar a aula mais atrativa, ajudar o professor ou não?

R: Sim. De acordo com o governo, eles oferecerão uma série de programas educacionais interessantes, que podem complementar as aulas e  facilitar o dia-a-dia dos professores.

O que deu errado no UCA e que não pode acontecer nesse novo projeto dos tablets?

 R: A infraestrutura.

Porque vocês ganharam os computadores do UCA? Fizeram algum pedido ou inscrição?

R: Fomos convidados. Acho que porque estamos mais próximos do Ministério da Educação e da Secretária de Educação do DF.

 

 

 

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